sábado, 7 de fevereiro de 2009

A Batalha

Um fator importante a ser ressaltado é o cenário específico que o Senhor Krishna escolheu para transmitir Suas instruções transcendentais: o Campo de Batalha de Kurukshetra. Por que, para expor a ciência eterna da alma, o Senhor valeu-se de uma situação tão dramática, onde, nos momentos seguintes, aconteceria uma guerra violenta com milhões e milhões de vítimas?...
Quando se fala em batalha, se fala em mortes, ou seja, a perda do próprio corpo. Portanto, Árjuna representou a situação de uma pessoa que, diante da possibilidade da morte, se entrega a sentimentos de apego excessivo ao próprio corpo e aos corpos ligados a ele, manifestando assim grande sofrimento e temor. De qualquer modo, a experiência dolorosa do contato com a misteriosa morte serviu para que o interesse de Árjuna pelo conhecimento espiritual viesse à tona. De fato, não resta a menor dúvida de que, enquanto experimenta uma condição de felicidade e conforto materiais, uma pessoa comum não irá buscar conhecimento espiritual. Entretanto, para uma pessoa piedosa, quando lhe acontece alguma calamidade ou quando sente que a morte se aproxima, não lhe resta outra alternativa a não ser se refugiar no Senhor. Desse modo, muito embora este mundo material seja um lugar cercado de constantes perigos e perplexidades, a pessoa inteligente encara isso como uma excelente oportunidade para que se cumpra o propósito da vida humana e se progrida em compreensão espiritual. O fato de a Bhagavad-gita ter sido falada num campo de batalha também serve como uma indicação clara de que todos podem receber instruções transcendentais e colocá-las em prática em qualquer momento, local ou circunstância. Em outras palavras, se Árjuna foi capaz disso num local tão aparentemente inapropriado e praticou yoga e meditação mesmo enquanto lutava fortemente no campo de batalha, que dizer daquele que vive numa condição muito mais simples e tranquila?
O dilema de Árjuna envolvia três considerações: seu compromisso como guerreiro, sua posição delicada de ter de enfrentar parentes e benquerentes no exército adversário e a presença todoauspiciosa de Krishna no campo sagrado de Kurukshetra. Como um guerreiro, Árjuna simplesmente deveria prosseguir com firmeza na batalha e cumprir seu dever. À medida que se estuda a Bhagavad-gita entende-se claramente que a batalha entre Árjuna e seus primos não girava em torno simplesmente de interesses materiais. Tratava-se de uma verdadeira batalha entre o bem e o mal, o divino e o demoníaco. Por representar a natureza divina, a vitória do exército de Árjuna traria benefícios auspiciosos não só para as pessoas da época, mas também para as futuras gerações. Portanto, como general responsável pelo exército das pessoas divinas, Árjuna estava completamente protegido pelo dharma e, em nenhum momento, incorreria em pecado.
A segunda consideração é ainda mais delicada. Árjuna teria de se confrontar com vários benquerentes e membros queridos de sua família que estavam no exército oponente. Como poderia ele conciliar os seus deveres de guerreiro com seus sentimentos amorosos baseados nos laços familiares? Como um devoto do Senhor, Árjuna era repleto de qualidades santas, como o desapego, o perdão, a compaixão, etc., e, assim, preferia desistir da luta e abandonar seu compromisso como guerreiro a matar seus benquerentes. Do ponto de vista da posição de um devoto, essa atitude pacífica e mansa de Árjuna é considerada louvável. Entretanto, do ponto de vista de quem tem o compromisso de proteger toda a sociedade humana sua atitude era considerada um ato de covardia. Isso nos mostra que os deveres perante toda a sociedade humana devem ser colocados sempre acima dos interesses pessoais familiares. Especificamente nesse caso, o compromisso de proteger a sociedade das mãos de um governo demoníaco definitivamente deveria ser colocado em primeiro plano na escala de valores sociais.
Finalmente, a presença de Sri Krishna ao lado de Árjuna transformava a batalha numa atividade completamente transcendental, o que esclarece definitivamente que a condição aflitiva de Árjuna não se justificava. Krishna é considerado o pai e protetor eterno do dharma. Portanto, Sua presença auspiciosa e Suas instruções garantiam a liberação última para qualquer guerreiro que fosse sacrificado em nome do dharma.
Concluindo, as sublimes instruções de Krishna na Gita são atemporais e de aplicação geral. Elas servem para qualquer um, em qualquer época ou lugar, e, ainda hoje, qualquer pessoa inteligente e humilde que as leia pode obter a mesma iluminação que Árjuna obteve ao ouvir a Bhagavad-gita e será tão beneficiada como ele, o qual estava na presença pessoal de Krishna. Na realidade, pelo fato de se situarem na plataforma absoluta, as instruções de Krishna não são diferentes dEle. É claro que, do ponto de vista material, a associação entre uma pessoa e outra depende do contato pessoal físico. Mas a situação é diferente no que diz respeito à associação espiritual. Na verdade, Krishna transmitiu a Gita, a qual foi registrada pelo grande sábio Vyasadeva, para que todos tenham a oportunidade de receber Suas instruções mesmo que Ele esteja fora do alcance da visão material. Como ficará claro ao longo desta obra, o Senhor possui poderes inconcebíveis, e, por ser uma de Suas energias, a energia material pode ser espiritualizada pelo Seu divino desejo. Desse modo, uma escritura como a Bhagavad-gita é uma representação sonora autêntica do Senhor e é especialmente destinada à percepção sensorial que possuímos neste momento.

Um comentário:

  1. A misericórdia e a piedade de Krishna reinaram na batalha, mesmo aqueles aque agiram por paixão, ignorância e bondade de forma inconsciente foram abençoados por Krishna e acabaram salvos.

    Uma imensa demonstração de amor da Suprema Personalidade, uma batalha que ocorreu para o bem de todos.

    Hare Krishna!

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